O romantismo do cinema dos anos 80

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Há uma comédia romântica pouco vista – e também comentada – que se distingue dos outros “espécimes” da mesma categoria mas que, infelizmente, está sempre excluída, sabe-se lá o real motivo, das grandes listas do gênero.

Say Anything é de 1989 e traz consigo um John Cusack que é o protótipo da visão honesta dos relacionamentos em finais dos anos 80.

Proverbialmente, e seguindo a cartilha hollywoodiana, é a mocinha que passa o filme inteiro fazendo com que o homem de seus sonhos a perceba. Mas aqui, é o sensível personagem de Cusack quem realmente investe no relacionamento, ao passo que é ela quem permanece indiferente às suas investidas românticas.

O filme vale ainda a espiada sobretudo pelo momento predileto da platéia feminina: claramente devastado sentimentalmente, seu personagem se prostra diante da casa de sua amada equilibrando na cabeça um som portátil que toca ensurdecedoramente In Your Eyes, de Peter Gabriel.

É notória a história de que Cusack, num primeiro momento, se recusou a aceitar o papel por estar farto de fazer filmes de temática high school. Ao ler o roteiro,  no entanto, se convenceu que o personagem não seguia os padrões adolescentes da época (leiam-se: bêbados, mulherengos e inconsequentes).

E cá estamos nós, sempre à beira do abismo, e como nas fitas em série, salvos no último minuto.

E é por esse motivo que esse filme do diretor Cameron Crowe finda uma era de comédias românticas dos anos 80 que talvez hoje soe doce demais para a nossa sensibilidade pasteurizada.

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O melhor Marlon Brando

Brando

Uma das mais magistrais interpretações de Marlon Brando no cinema é em A Streetcar Named Desire (1951).

O filme é o drama a respeito das frustrações de uma mulher angustiada, miserável moralmente, sensível e traumatizada pela própria ruína amorosa.

Vivien Leigh é Blanche DuBois, essa mulher frágil frente a um homem vigoroso e verdadeiramente primitivo em sua agreste espontaneidade.

No filme, o homem é o Stanley Kowalski de Marlon Brando. Ele é a réplica imediatista, viril e sem arestas à decadência aristocrática de Vivien Leigh e sua Blanche.

Kowalski é um personagem permanentemente voltado para o presente. O importante para ele é o agora. Seu apreço é apenas por suas necessidades básicas primárias: comer, dormir, fazer sexo, jogar e beber.

No filme, Vivien Leigh  se sente ferida e, ao mesmo tempo, irremediavelmente atraída pela rispidez de Brando, seu cunhado.

No aniversário de Blanche, e quando todos estão todos à mesa e gozando de suas maneiras rudes, ele dá com a mão num prato, e possesso de uma cólera infernal, levanta-se da cadeira feito um animal e enquanto mastiga o resto dos fiapos da galinha, discorre acerca de como é importante o papel de um rei num pequenino feudo, metaforizando o quão é fundamental o espectro masculino em sua própria casa. Todos ficam feito lebres acuadas perante a sua robustez e magnitude masculina.

A fita é de Elia Kazan baseada na peça original do dramaturgo Tennessee Williams.

Poucos diretores americanos – excetuando nomes do quilate de John Ford, Howard Hawks, Billy Wilder e Hitchcock –, possuem currículo comparável a Kazan. Não se conhece, por exemplo, quem não o respeite pelos serviços prestados ao cinema americano nesses tantos anos de trabalho.

Williams – e Kazan por conseguinte -, parecem olhar e rir nos falando uma enciclopédia britânica sobre a natureza humana.

Ambos não se vangloriam nem tem ilusões.

Eis o século do cinema.

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