Um enigma chamado Greta Garbo

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Não respondia cartas dos fãs, não autografava fotos, tampouco dava entrevistas à imprensa.

Abandonou John Gilbert no altar em 27.

A despeito dos olhos de azul quase translúcido, costumava haver insuspeitas águas turvas, fundamentalmente nas partes mais fundas.

Fato é que um dia, num ímpeto, com mais de 20 anos devotados à Sétima Arte, e sem dar satisfações a quem quer que fosse, Greta Garbo decidiu abandonar tudo e viver reclusa. Por conta disso, um enorme fascínio foi gerado a sua volta.

Nascida em 1905, em Estocolmo, na Suécia, Garbo foi eleita pelo American Film Institute como uma das maiores lendas do cinema.

Diz-se que quando se mudou para Nova York, adotou o nome de Harriet Brown e passou a se dedicar à jardinagem.

Ao longo de toda sua vida, ela só concedeu apenas meia dúzia de entrevistas.

Morreu de pneumonia em 90.

“I want to be alone”, frase famosa proferida em Grande hotel (1932) virou seu mantra.

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Um Hamlet preto

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Kenneth Tynan, figura de proa da crítica teatral disse certa feita que Peter Brook é, no pós guerra, o maior diretor de Londres.

Discordo.

Brook está acima desta constatação, pois nasceu na época errada. A ele pertence o futuro (ele o prediz) porque não é obcecado pelo excesso interminável de palavras. São poucos os contemporâneos que o rivalizam. Seu filme, The Tragedy Hamlet (2002), produzido pela BBC, é uma profecia quando mostra em imagens bem mais do que em frases.

Demonstrar em gestos é o novo “falar”. Vide Adrian Lester como Hamlet, ator negro nascido na chuvosa Birmingham, Inglaterra. Seus olhos são divagantes. Fitos em dor e de fato desconcertantes.

Lester pode não ser o grande elocucionista shakespeariano John Guilgud “em possessão” no lendário teatro Old Vic, mas tem cara de cigano erudito; um timoneiro e também escravo de galés romanas capturado na África Oriental: esboça dor através do olhar – sem suar. Sua voz vibra como uma flecha, erguendo-se em certas inflexões (sutis) como uma serpente arábica desses mercados sujos na Costa do Marfim.

Havia em Hamlet (1948) de Laurence Olivier, a musicalidade dos versos. Adrian Lester, ao contrário, cria um motor de combustão interna, uma flama intuitiva – não se sabe, entretanto, se para uma sala de espetáculos sua dicção seja dominante até o fundo da galeria.

Olivier, além dos olhos triunfantes (mais escurecidos do que os de Lester), tinha uma voz apocalíptica e um magnetismo físico poderoso como um canhão.

Com Lester, Brook pinta um Hamlet que parece conhecer sua plateia e os riscos de interpretar um perfil tão complexo como o do Príncipe da Dinamarca. À primeira vista não é sublime, mas agrada. Não há impostações em sua interpretação e é aí que a há o estorvo de nossos julgamentos preconcebidos. Não obstante, Lester parece mais um anônimo que entrou para o olimpo dos que foram Hamlet.
Mas se examinarmos com maior critério, eis aí a pepita: a textura das suas palavras são de uma vivacidade lindamente desgastada; o solilóquio “ser ou não ser” é um espectro e é, em suma, objeto de grande contemplação e fascínio exatamente por parecer racional e ao mesmo tempo inconstante.

Como um vulcão ativo sem erupção.

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