Lágrimas de crocodilo

a culpa e das estrelas

 

Para onde quer que se olhe A Culpa é das Estrelas é inescapável.

Das araras do supermercado da esquina às ovações da crítica.

O New York Times lhe dedicou pilhas de páginas ruidosas. O The Guardian elevou o romance de John Green a um status olimpiano.

Só no Brasil, esse fenômeno editorial  lacrimoso que conta a respeito da dobradinha doença terminal/amor incondicional vendeu mais de 1,25 milhões de exemplares.

Vamos aos pormenores: assim como no best-seller de John Green, Hazel (Shailene Woodley) e Gus (Ansel Elgort) se apaixonam  perdidamente ao se conhecerem em um grupo de apoio para pacientes com câncer.

Há, no entanto, um quê de sintético no engate do romance entre os dois personagens no filme de Josh Boone.

Em outras palavras, há uma artificialização na relação entre ambos, clara pelos diálogos que soam como uma logorréia pedante como se o roteiro enfatizasse, linha após linha, o contar de uma história de amor da pesada que fugisse das convenções hollywoodianas, e com isso bye bye espontaneidade entre o casal de protagonistas.

E olha que essa meninada bem que tenta, embora deva-se reconhecer o deserto de bons atores jovens em Hollywood.

Woodley e Elgort dão seu máximo em meio a fajutice de um script  não orgânico, incapaz de recapturar a densidade do romance de John Green.

E mais: o filme não é bonito. É obra crua, dura.

Não adianta negar esse fato. O espectador sabe o que está assistindo. Mas, paradoxalmente, a interpretação do casal em alguns raros momentos é tão forte que se esquece o que as pessoas estão fazendo no set, isto é, sendo venenosamente e inexoravelmente consumidos pela doença. Miraculosamente  inspirados, esses atores colocam abaixo o resto filme que é apenas regular.

A Culpa é das Estrelas é emocionalmente manipulativo e calculado a fim de deixar a plateia aos prantos e a soluços incontidos. Eis os ardis: da trilha melodiosa ao close up em momentos críticos e cuidadosamente estudados.

E assim, na excelência do domínio da extração das lágrimas, a indústria de cinema norte-americana se reafirma.

O.K.?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Patifarias na Embrafilme

Embrafilme

 

Outro dia mesmo, vi alguém cantando láureas sobre a Embrafilme (estatal extinta que fomentava, produzia e distribuía filmes brasileiros e que foi pulverizada do cosmo nos anos 90).

Ora, a empresa era gerida por safardanas da pior estirpe; e entre mamatas e crocodilagens mil, um mundo de pessoas desqualificadas.

Hoje, admiro-lhes a cara de pau ou o estoicismo.

Claro, muitos filmes eram terríveis e o insucesso crônico de vários deles se deu por conta de certos embusteiros que capitaneavam essas produções.

Fiquei sabendo através de fontes fidedignas que de 1 bilhão de cruzeiros (antigos), o beneficiário embolsava 25% e gastava o resto no filme, que era, invariavelmente, fracasso certo. Sem dar nome aos bois, Moniz Viana, um dos críticos de cinema legendários do nosso país, escreveu várias vezes na Tribuna da Imprensa que a Embrafilme terminaria em roubalheira.

Falou e disse.

 

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Trunfo de roteiro marca novo ‘X-Men’de Bryan Singer

xmen

 

O filme começa em um futuro pós-apocalíptico em 2023 com os filhos do átomo, os X-Men, às favas com robôs colossais, os Sentinelas.

Desenvolvidos por Dr. Bolivar Trask (Peter Dinklage), prolífico industrialista de armas em 1973, estas máquinas beligerantes são capazes absorver, adaptar e finalmente usar este poder contra seu adversário.

Nesse universo distópico, Professor Xavier (Patrick Stewart)  e seu ex-arqui-inimigo Magneto (Ian McKellen)  agora lideram um diminuto contingente de X-Men que resistem à duras penas a invasiva dos Sentinelas.

Acastelados, os super-heróis bolam um plano dos mais mirabolantes para impedir o genocídio dos que restaram de sua raça: com a ajuda de Kitty Pryde (Ellen Page), decidem enviar a consciência de Wolverine (Hugh Jackman) de volta ao seu próprio corpo nos anos 70  para demover a aprovação da lei anti-mutantes  mudando dessa maneira os rumos da história.

O roteiro de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é um milagre de inspiração.

A frase acima é propositadamente um audível clichê.

Há muito, tenho acompanhado as recentes críticas que as próprias críticas que os meus colegas resenhistas de cinema tem recebido ao analisarem o novo X-Men – Dias de um Futuro Esquecido.

Uma minoria, formada de patrulhas macarthistas, criou para si um universo à parte – o que nada mais é que uma forma camuflada de religião –  onde todo e qualquer roteiro de filme a ser produzido na indústria de cinema norte-americana atualmente deve antes passar pelo crivo de sua membresia.

Estamos em Hollywood, minha gente. A glamorizada zona dos clichês. Esse terreno pantanoso na ficção – que não abarca somente o cinema.

O que, afinal, faz a força motriz de um clichê? Um clichê, senhoras e senhores, é o que é, porque de certa maneira, é verdadeiro. Isto é, assentado por séculos de assentimento e convicção das massas.

Em  Hollywood – não o distrito de Los Angeles nos Estados Unidos, mas sim a terra de ninguém tanto moral quanto artística – , há a vaporização de ideais, reciclagem de roteiros, clonagem de tramas e onde até o santo clichê  é, às vezes, inexcedível.

Há de se levantar montanhas de argumentos contra este novo X-Men (as que dizem a respeito à cronologia dos quadrinhos são apenas algumas delas), mas depois de vinte minutos de projeção, o espectador, mesmo o não familiarizado com os gibis da Marvel  e que venenosamente fazer cara de esgar colérico por conta do excesso de heróis e das variações entre passado e futuro, já vistas e revistas em outras produções cinematográficas, contemplará um filme de ação com um roteiro engenhoso, deliciosamente lugar-comum e que consegue agradar a todos, público e crítica.

O DNA mutante dos super-produtores da Fox com sua visão mercadológica atípica,  anos-luz à frente dos outros seres humanos, conseguiram agradar não somente a patuleia, a maioria acostumada à pipoca de micro-ondas e a Coca-Cola Zero, mas também, mais precisamente, aos exigentes fãs das HQs.

E estes ficaram de joelhos.

 

 

 

 

 

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James Dean atemporal

Jimmy

 

Dia desses, vi uma moça com uma foto do James Dean estampada na camiseta.

Na mesma hora, me veio à cabeça o filme Vidas Amargas (1955) de Elia Kazan.

Vidas Amargas é baseado no último terço do romance de John Steinbeck, East of Eden, que por sua vez, utiliza como fundamento as ressonâncias bíblicas dos irmãos Caim e Abel do Antigo Testamento. Foi o primeiro dos três grandes filmes que sedimentaram a aura de mito em torno de James Dean.

Neste, Dean faz o filho caçula de um rancheiro da região agrária de Salinas, na Califórnia, que rivaliza com seu irmão mais velho, ao mesmo tempo em que suplica pelo afeto do pai puritano.

Kazan injeta o sopro determinante à obra de Steinbeck por ter escalado Dean como protagonista.  Kazan como Hera, criou vida como na estátua de Pigmalião e dessa maneira, nós os espectadores conseguimos olhar com complacência e terror para aqueles seres que sabem muito bem o mal que se fizeram, que se destruíram em família, mas que, ainda assim, são parte uns dos outros.

 Muito se fala, ainda hoje, do triunvirato, James Dean, Juventude Transviada e seu diretor, Nicholas Ray. Estes não revolucionaram em si, nada.

O sucesso de público e crítica é indubitável, claro. Mas estamos falando apenas de uma síntese revolucionária.

 Dean, o homem, era apinhado do cinismo, da rebeldia dos anos cinquenta e da autocomiseração (típica do pós-guerra).

 Seu modo de andar (assim como o de Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado) era vulgar (num bom sentido) e tudo nele nos dava a impressão de que dormiu vestido. Se estivesse na França pareceria cidadão francês; na Grécia profundamente grego.

Dean assumia uma cor que o fundia com o fundo, como um réptil recostado numa pedra.

Estamos falando aqui indiscutivelmente de um nômade.


Esgrima

Montgomery Clift , que fez como ninguém uma cara pseudo-compungida em Um Lugar ao Sol (1951) , foi a coroa de gênio de George Stevens.

Clift, favorito ao Oscar na categoria de Melhor Ator em 1952, perdeu a estatueta para Humphrey Bogart que encabeça um aventureiro canadense às voltas com o Rio Congo e o exército alemão em Uma Aventura na África. Páreo duro.


Jack Nicholson

Laços de Ternura (1984). O melhor dos melodramas hollywoodianos desde o edulcorado Tudo o Que o Céu Permite (1956) de Douglas Sirk.

Nicholson trava um duelo de interpretações com Shirley MacLaine. Ele faz um ex-astronauta que ainda vive das glórias do passado. Nunca se viu um bêbado em franca decadência como Nicholson em Laços de Ternura.

A voz embargada pelo excesso etílico, os trejeitos,  o timing soberbo, que incluía, pasmem, a capacidade  de dar musicalidade em cada palavra proferida.

Há muito ainda sobre Jack Nicholson.

 

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