Pra Frente, Brasil!

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Em 1983, depois de ter sido interditado pela censura por cerca de pouco mais de um ano, acabou sendo liberado em última instância e sem cortes, Pra Frente, Brasil, filme-síntese do processo de emancipação do nosso cinema, conquista esta inédita de uma sociedade civil ainda engessada pelo signo pantanoso da ditadura militar.

Se a liberação de uma obra como essa foi antes de tudo um passo sem precedentes rumo à democracia brasileira e que ajudava, de certa maneira, a escancarar as portas da liberdade artística, o que dizer então de sua realização; um filme que tece fio grosso quanto o assunto são os anos de chumbo?

Com motivos nos thrillers políticos de Costa-Gavras, o cineasta Roberto Farias desvela engenhosamente a via-crúcis de uma família classe média em virtude do desaparecimento de um de seus integrantes, Jofre Godói (Reginaldo Faria) confundido com um ativista político acusado de subversão. Sua esposa Marta (Natália do Vale) e seu irmão Miguel (Antônio Fagundes), são acometidos a um calvário infernal enquanto lutam por meios legais por pistas a respeito de Jofre, mas esbarram nos empecilhos impostos pela polícia, a juízo dos embustes ditatoriais.

Vencedor dos prêmios de melhor filme e melhor edição no festival de Gramado de 1982, Pra Frente, Brasil ainda se firma como um sólido representante de um cinema de incômodo para uma nação que esperava às pontas dos dedos dos pés a carta de alforria das Diretas-Já.

De grande repercussão à época do lançamento, diz-se que o argumento para o filme surgiu de um episódio verídico, experimentado pelo próprio Reginaldo  Faria. Certa feita, em tom de anedota, este fez menção de que “carregava um revólver no bolso” no check in do aeroporto Galeão para uma senhora. Acabou sendo levado à força para interrogatório. Do resultado da patuscada, surgiu o roteiro para o longa.

A respeito de Roberto Farias, ele foi um dos poucos cineastas nacionais a saber transitar por gêneros fílmicos tão díspares. Isto posto, cabe dizer que ao se fazer uma dissecação de sua carreira, é fácil constatar que sempre foi uma sumidade em sua área. Dirige sob a batuta da Embrafilme veículos para Roberto Carlos, Grande Otelo e Ankito. O mais ilustre membro do clã Farias capitaneou ainda chanchadas, além de alternar sua carreira entre filmes ambiciosos (Selva Trágica) com obras de apelo popular (Os Trapalhões e o Auto da Compadecida).

Com Pra Frente, Brasil, Farias assinou os termos gerais de uma emocionante e emocionada contribuição para uma outra história de nossa nação e de nosso cinema. O diretor realiza um filme raro em seu estilo sem os didatismos piegas de subprodutos que teimam em contar a respeito de uma revisão histórica simploriamente formal de nosso país.

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