A hora certa de morrer

 

Em O Jantar (1988) há Vittorio Gassmann, o artista.

Gassmann foi uma estrela mundial, embora desconhecida. Contrassenso em termos, pois mostrou como ninguém a entropia latina pro mundo ao passo que satiriza a própria condição só por esporte.

O filme se passa em uma cantina italiana, desde a chegada dos clientes até o seu fechamento.

O cineasta Ettore Scola pinta um belo painel humano das idiossincrasias em cada uma das mesas do restaurante, focalizando os dramas e alegrias pessoais dos frequentadores.

O ator faz de forma soberba um observador solitário, um professor idoso, sentado em uma mesa discreta, e que morre de amor platônico pela dona do estabelecimento, interpretada pela atriz Fanny Ardant. O restaurante se transforma num feudo. Cada mesa, cada prato de fettuccine, é um terreno independente. Gassmann mira seu holofote do alto de sua mesa como uma arquibancada. Fita, dá pitacos e às vezes até interage com a fauna ao seu redor. E mesmo com a voz embargada pela idade, vê-se a rara capacidade de obliterar a desvantagem dos anos criando um vácuo respeitável entre os outros atores em cena.

E se comédias europeias são hoje uma solene raridade no mercado, nunca mais aquele humor caótico, devasso, ora fino, ora libertino.

Num outro filme inesquecível interpretado por ele, em meados da década de 60, no auge da commedia all’italiana, foi dirigido por Mario Monicelli que fez com sórdido humor, um dos aspectos mais avassaladores do séc XIV, representados pela tríade guerra, peste e fome.

De matiz quixotesco, O incrível exército de Brancaleone (1966) aborda as desventuras do anti-herói medieval mambembe Brancaleone da Norcia (Gassman), que, com o auxílio de seu séquito de maltrapilhos, empreendem uma cruzada anárquica em busca de um feudo roubado.

Um filme vital, embora erroneamente diferido pelas novas audiências.

Gassmann, italiano de Gênova, foi um ator imenso e, segundo amigos próximos – como Totó, Fellini e Marcello Mastroianni – , um ser humano da mesma grandeza.

O mundo não tem uma cultura tão rica e variada para que possamos desperdiçar gente assim. A Terra, com seus habitantes desmemoriados como são, teve o privilégio de ter tido um gênio raro como o de Vittorio Gassman pisando sobre suas calçadas, e hoje, após 16 de sua morte, sente a tragédia de ter zelado tão mal por esse patrimônio.

Ainda sim, creio que morreu na hora certa. Antes do dilúvio.

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“Solaris” de Andrei Tarkovski: filosofia da ficção científica

Solaris

 

Um velho amigo me pergunta qual dos filmes me “causa mais”; se é 2001 – Uma odisseia no espaço (1968) de Stanley Kubrick ou Solaris (1972) de Andrei Tarkovski.

Em se tratando de ficção científica  – e a essa altura da vida -, fico com o filme do Tarkovski mais por acrescer e não diminuir o conteúdo da trama original que, por sua vez, tem como base o livro homônimo de Stalislaw Lem publicado em 1961. Reflexões: o desconhecido da morte, a obscuridade dos relacionamentos humanos e os contatos extraterrestres.

Solaris, o filme gira em torno do cosmonauta-psicanalista Kris Kelvin que é enviado à estação orbital soviética do misterioso planeta Solaris a fim de  investigar  a ocorrência de alucinações  e a comportamentos paranoicos de alguns dos tripulantes. Chegando lá, fica sabendo que um dos cientistas cometera suicídio.

No tal astro, corporificações de antigas memórias e de certos anseios pessoais surgem repentinamente e de forma inoportuna durante o sono. Um oceano em sua superfície “lê” e também “materializa” os pensamentos  dos astronautas.

Assim como o monolito negro de 2001…, o mar de Solaris é algo inefável e enigmático para a pobre natureza humana. Em outras palavras: algo tão desconhecido quanto misterioso.

No final das contas, são filmes um tanto semelhantes no que se propõem. Ambas obras falam do desbravamento humano rumo às fronteiras do desconhecido e seu encontro com uma certa inteligência extraterrestre.

Encontros absolutamente inconclusivos, estes.

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“E Deus disse a Caim” (1970)

caim

 

Anthony Dawson, sob o epíteto de Antonio Margheriti foi o mais maldito dos cineastas romanos.

Fascinado com cinema fantástico, filmou de Barbara Steelle a Terence Hill e, no meio do trajeto, dirigiu vários épicos pseudo mitológicos, filmes de terror envolvendo canibais e um sem número de Spaghetti Westerns.

Seu grande momento profissional é o período que vai dos anos 70 aos 80. Desse período destaca-se E Deus disse a Caim (1970), faroeste macarrônico dos bons, com um Klaus Kinski num papel tão assustador quanto fantasmagórico.

Na obra, Margheriti destila elementos de horror gótico à história de O Conde de Monte Cristo de Dumas e ao tema recorrente da vingança – tão cara ao faroeste italiano – acabando por tecer um verdadeiro dark western.

Ao receber um misterioso indulto do governo, Gary Hamilton (Kinski) parte para a desforra numa caçada aos algozes que o prenderam injustamente. Seu retorno tem como metáfora a coincidência da chegada de um tornado causando destruição a uma cidadezinha texana. Kinski projeta o personagem sem mover sequer um vinco de seu semblante riscado pelo tempo e pelo sol, fuzilando toda a vivalma com um rifle de cano serrado. Ora, isso é assassinato a sangue-frio. Mas o registrômetro moral do espectador não se atém ao fato.

Os vilões que o confinaram são agora transmutados em vítimas de sua vingança tartamuda.  É dentro dessa premissa já clássica e deliciosamente batida que o roteiro se desenvolve.

Versátil, Margheriti foi um dos cineastas mais prolíficos deste período do cinema italiano. Fez pilhas de filmes de ficção científica e terror a toques de caixa. No final de sua vida, filmou vários veículos de guerra e ação para o filho do astro Anthony Quinn, Francesco, no Brasil.

Até um gerente de gênio como Quentin Tarantino prestou-lhe franca admiração ao batizar um de seus personagens em Bastardos inglórios (2009) de Antonio Margheriti, como um monumento vivo dos tempos áureos.

Sua morte em 2002 foi o fim de uma época. Com ele, se foi não apenas uma era, mas um anseio de uma certa simplicidade cinematográfica que se tornou aparentemente impossível em nosso tempo.

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