Formalismos no cinema

argel

 

Uma questão de travelling

Jacques Rivette, da cúpula Cahiers du Cinema, influente publicação de crítica cinematográfica francesa, chamou o cineasta romano Gillo Pontecorvo de formalista por causa de um travelling.

Vai ver é birra.

Pontecorvo lutou francamente contra o colonialismo francês na África. A questão argelina, ainda que esquecida, é uma página negra na história da França.

Ficou-se provado que um grupo de paraquedistas liderados por um certo Jacques Massu (fascista, segundo Jean-Paul Sartre), usaram de tortura para arrancar informações. Vide A Batalha de Argel (1965). Pensem o que pensarem: Gillo Pontecorvo não tem rival.


Preminger

Otto Preminger foi um cineasta, no mínimo memorável, mas que nunca esteve no caderninho dos críticos.

Pouco se sabe do real motivo.

Bunny Lake Desapareceu (1965) nos conta a respeito de uma garota que desaparece em Londres e ninguém acredita que existia realmente. O detetive do filme é ninguém menos que Laurence Olivier. Eis um filme que sugere perversões indizíveis pois há uma atmosfera que causa uma grande sensação de malignidade; imagina-se que a menina desaparecida foi submetida a grandes horrores pelo roteiro apinhado de subentendidos eróticos.

Já o film noir Laura (1944) é um estudo sobre a necrofilia estrelado por um corrupto Vincent Price e Gene Tierney com uma beleza olimpiana e virginal. Seu rosto é hipnótico e exige de Price sua rendição incondicional. Os olhares em planos e contraplanos falam coisas que vão muito além do que aparece no script. Ainda fazem filmes assim?

 

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A volta do lagarto atômico da Toho Pictures

 

A mera possibilidade de uma hecatombe nuclear após os bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki no Japão em 1945 geraram não apenas um sentimento de medo e desolação naquele país, mas o assunto foi também tema, anos depois, de produções de baixo orçamento do então engatinhante e popular gênero kaiju.

Nesses filmes kaiju, monstrengos mutantes enormes criados através de acidentes radioativos devastavam cidades japonesas deixando vestígios de destruição por onde passavam.

Godzilla é a criação de um ser assustador devido à exposição à radioatividade que surge num contexto de um povo que não havia superado o horror da bomba atômica. Os próprios japoneses transformaram seu medo em filme de terror e eis Godzilla, um bicho horripilante que dizima o Japão num piscar de olhos.

Godzilla (ou Gojira como é chamado por lá; mistura de “gorila” e “baleia”) é um destes kaiju, concepção da Toho Pictures em 1954, um descomunal réptil de presas poderosas e placas ósseas de um estegossauro e que cospe rajadas radioativas através da bocarra ancestral.

Este novo Godzilla ganha pontos por ser uma surpresa deliciosa e literalmente aterradora. Estamos aqui falando de bravatas titânicas como nos velhos tempos. Nesse caso, o nosso velho lagartão gorducho versus dois bichões pré-jurássicos (um macho e uma fêmea) que ameaçam a humanidade.

Thomas Tull, produtor do longa, sempre possuiu predileção por adotar franquias arruinadas e recriá-las. O sucesso é sempre certo. Vide a cinesérie Batman (sucateadas por Joel Schumacher) e agora Godzilla (assassinada por Roland Emmerich em 1998 com sua iguana insalubre e indecorosa).

Outra coisa: esqueçam o cast “humano”. Eles não são lá de grande relevância. O ponto aqui são as belíssimas sequências de destruição e, claro, o elenco de bichões que agradam. E muito.

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