O dia em que o fascínio da arte matou o juiz

rito

 

Stravinsky definiu a música como “uma sucessão de impulsos e de repouso”.

A síntese da  obra de Ingmar Bergman sempre possuiu o indelével traço do ritmo lento entrecortado por impulsos de emoções. Essas emoções impelem a expressão do rosto  humano que, em toda sua obra, é multiforme e abarca uma fecunda quantidade de variações.

Rostos iluminados, eclipsados, céticos, nus.

Os estados de crise, as insolúveis  questões de problemática existencial são a expressão de uma vida interior saturada, que se traduz no desejo de fazer esses rostos falarem.

Feito para a TV sueca e filmado em planos próximos de rostos e de objetos, além de ser  quase que totalmente desprovido de cenários, O Rito (1969) de Ingmar Bergman, gira em torno de três atores (interpretados por Gunnar Bjönstrand, Ingrid Thulin e Anders Ek) que são acusados de representar uma peça, cuja obscenidade perturba a ordem pública.

Esses são confrontados no escritório de um juiz (Erik Hell) e interrogados. O inquérito dos acusados deve terminar pela reconstituição  do espetáculo denunciado.

O poder judiciário, representado no filme pela figura do juiz, é associado à manutenção da ordem, cujo intento é reprimir quaisquer manifestações que o conteste. A arte, por sua vez, tem como desígnio pulverizar essas amarras autoritárias e transmitir ao público a sua própria verdade. Ao final da representação, a fascinação da arte mata o juiz.

Do tal número pecaminoso, não veremos grande coisa, a não ser roupas fálicas discorridas em um ritual que mescla paganismo e liturgia, oscilando entre o sacro e o profano, onde um dos artistas bebe o sangue de Deus.

Com o austero desfecho, há a consumação severa de que Bergman, o artista, nos revelou, afinal, que o juiz fora acometido não por um ataque cardíaco e sim por uma catarse fulminante, no momento em que, abdicando da utopia da compreensão psicológica, desejava “ver” o sublime da arte.

É a queda da besta tricéfala burguesa e a aclamação da arte; o apogeu da expressividade cultural e o perigeu da feiúra dos sem rosto.

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