Bandido bom é bandido vivo

bandido

 

Se você ainda crê em críticos de cinema e continua aceitando o fato de que é o diretor que inventa tudo o que se passa na tela, o adeus a suas ilusões está em O bandido da luz vermelha (1968) de Rogério Sganzerla.

Houve no Brasil – entre o final dos ano 60 e meados dos 70 – um dos mais polêmicos e também marcantes momentos de nossa arte cinematográfica: o Cinema Marginal. Nesse período de grande tensão política, um grupo de jovens realizadores, rompendo com o cânone tradicional de narrativa e à margem da indústria cultural, fez do cinema uma forma de resistência e de pressão artística.

Quem cresceu na era de JK aprendeu a crer no cinema brasileiro a partir do movimento Cinema Novo (uma mescla de Marx , Nietzsche e Oswald de Andrade), quase teve um troço ao se deparar com a iconoclastia dos filmes do Cinema Marginal.

A ideia de “nacional” que fora concebida com o Cinema Novo, de repente caia por terra e tudo aquilo, de uma hora pra outra, parecia uma coisa caquética.

Os filmes do ciclo Cinema Marginal não caracterizavam um estilo, tampouco uma corrente. No entanto, os filmes desse período são um documento importantíssimo sobre uma época e um estado de espírito.

Eram anos duros.

Estávamos às voltas com a Ditadura, o AI-5 e a tortura.

Filmes como: Caveira my friend, Em cada coração um punhal e À meia-noite levarei sua alma, provam que nosso cinema nessa época já não era uma arte, e sim uma guerrilha contra o bom mocismo, o mundo estabelecido, as pessoas bem em sua pele.

 O bandido da luz vermelha, obra mítica desse período e um dos filmes mais importantes no nosso cinema, trata da subversão de valores, da anarquia e da profanação estética.

É a marca de uma ruptura estilística e social quanto às preocupações ideológicas dos cineastas do Cinema Novo (Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra e tantos outros).

Utilizando o mito da crônica policial paulistana e orquestrado por uma magnífica montagem de inspiração plástica e musical, o filme de Sganzerla enaltece a Estética do Lixo (tão cara ao movimento Cinema Marginal) e transforma um assassino oriundo do proletariado em um detetive hollywoodiano com pinta de Humphrey Bogart, mas com cara de terceiro mundo.

Nas palavras do próprio Rogério Sganzerla, à época da feitura do filme, finalizo: “O cinema brasileiro era o máximo porque era o impossível”.

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