A Joana D’Arc do cinema mudo

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Um polonês excêntrico, de nome Rudoph Maté, cinegrafou em 1928 a maior audácia fotográfica do cinema silencioso europeu.

Com suas minúcias microscópicas, Maté alcançou o panteão da geometria íntima, onde registra o contraponto da extrema purificação espiritual, (ou o puro combate de uma alma), com a confrontação de uma tragédia exclusivamente imaterial, onde todo o momento é interior, e que com ele, se expressa cabalmente por intermédio dessa parte privilegiada que é o rosto humano.

Todos os semblantes dos terríveis inquisidores de Joana de Domrémy foram filmados em elevado contraste, definidos por ângulos arquitetônicos estruturados em amplas paredes brancas e arcos por detrás deles, com excessiva luz, sem maquiagem, de forma que todas as manchas, rachaduras e pequeninas fendas da pele transmitissem uma vida interior em decomposição. Ao contrário de Joana, que foi fotografada em cinzas plácidos e suaves, para desempenhar a simbologia de alguém solene, posicionada num patamar de santidade e dominada por uma convicção oriunda de sua própria essência.

O diretor Carl Theodor Dreyer foi fiel à história da donzela de Orleáns.

Seu filme foi honestamente inspirado nas minutas e nos manuscritos oficiais do processo de julgamento de Joana D’Arc, que combateu sozinha uma frota de sacerdotes algozes em um tribunal eclesiástico.  Conta-se que ela foi ainda submetida a vinte e nove interrogatórios e também a torturas físicas e psicológicas.

Entretanto, o roteiro condensa-se num único dia trágico, que culminou em sua morte em uma fogueira em 30 de maio de 1431.

A atriz Renée Falconetti evoca soberbamente a autêntica filha do povo, que resistiu bravamente a ocupação de seu país por invasores britânicos.

Trata-se de O Martírio de Joana D’Arc (1928), seu primeiro e único trabalho no cinema.

Ela talvez seja a mais brilhante representação jamais registrada num filme, notou a crítica cinematográfica Pauline Kael.

Lendas do set dizem respeito à estranha técnica de direção de atores de Dreyer. Sua lendária e peculiar metodologia consistiu em trancar Falconetti em masmorras frias apinhadas de ratos, e na dura imposição de ajoelhá-la durantes longos períodos sobre pedras e deixar seu rosto sem nenhuma expressão – de forma que coubesse ao espectador perceber a angústia reprimida em torno de seu semblante.

Isso veio a ecoar no famoso método do diretor francês Robert Bresson, que no seu próprio O Processo de Joana D’Arc (1962), repetiu inúmeras vezes os mesmos planos, até que as aparentes emoções dos atores tivessem sido absolutamente exterminadas de suas performances.

O Martírio de Joana D’Arc é indubitavelmente a obra de maior êxito de Dreyer. Foi com essa película que o diretor dinamarquês conquistou sua maturidade artística.

Dreyer construiu uma obra de fecundidade e profundidade estéticas inesgotáveis, tornando-se modelo para cineastas como Ingmar Bergman, Andrei Tarkovsky e Robert Bresson.

Maté examina meticulosamente o cerne da face, extensão dissociável do espírito; Dreyer, por sua vez, compete com os grandes realizadores Renascentistas, não só porque neles se inspirou como também, mais essencialmente, descobre uma poderosa elegância, decoro e altivez, obtidas de um realismo escrupuloso que somente a Sétima Arte consegue expressar; e Falconetti, como Joana, realmente viu o arcanjo Miguel.

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