Acontece nas melhores famílias

baby

 

 

 

Baby Jane (personagem de O que terá acontecido a Baby Jane?, 1962) é uma pessoa insuportável, banal, desprezível e débil.

Sua irmã, interpretada por Joan Crawford, nutre uma relação de amor e ódio por ela, desembocando em uma paixão unidimensional.

O filme, thriller dos bons, nunca nos deixa com uma única opinião definida sobre qualquer das personagens ou acontecimentos.

Acontece nas melhores famílias.


Eu, um pernóstico.

Não é que eu seja pernóstico. Mas verdade seja dita: o cinema morreu em 1962.

O homem que matou o facínora (1962) de John Ford é a obra derradeira.

Houve um declínio da indústria hollywoodiana na década de 70 quando os grandes estúdios – que já haviam se transformado em conglomerados faraônicos -, descobriram o segmento infanto-juvenil.

O cinema se infantiliza, se estagna e se torna escravo da indústria cultural que a ele próprio ajudou a difundir no planeta.

Vide as prequels, remakes e a quantidade industrial de filmes baseados em histórias em quadrinhos e games de sucesso.

É o começo do fim.


 

 

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Olhos de abelha

colmeia

 

O Espírito da Colmeia (1973) é a história de duas menininhas moradoras de um pequeno povoado bucólico na região de Castela na Espanha em dias negros da ditadura franquista.

Um dia, a cidadezinha fica em polvorosa com a chegada de um cinema ambulante trazendo consigo a projeção de Frankesntein, o clássico “filme de monstro” da Universal Pictures de 1931.

Tudo em O Espírito da Colmeia é alusivo e alegórico.

A casa das protagonistas possui as janelas emolduradas em um dourado brilhante como os alvéolos de uma enorme colmeia.

Frankenstein, a criatura aterradora, é uma sólida referência ao déspota Francisco Franco que comandou com braço de ferro o país de 1936 a 1975 transformando a Espanha em uma nação disciplinada, doutrinada e com papéis sociais bem demarcados.

A obra versa ainda sobre as agruras infantis de duas crianças de olhares tristonhos e de espíritos inconciliáveis frente a essa sociedade hierarquizada, totalitária e alienada.

O filme, captado por uma luz solar rara, é o retrato de um sonho.

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O Moisés general e o “deuzinho”de Ridley Scott

exodus

Fato concreto e corrente: o próprio termo “adaptação” de qualquer que seja o meio de expressão (sejam estes as histórias em quadrinhos, videogames ou mesmo a literatura bíblica) para a linguagem cinematográfica, nada mais são que um “ajustamento”, um “equivalente” .

Em outras palavras, não existe nem existirá literalidade absoluta.

Audiências menos experimentadas procuram equivalentes entre as duas linguagens e um modo tacanho de apreciar o grau de “fidelidade” entre ambas. E o defensor, no caso o leitor médio da bíblia, vai logo recensear o número de elementos da obra inicial conservados no filme.

E é com uma espada dourada cravada na encosta do Mar Vermelho – e não com o pedaço de pau original – que Moisés (Christian Bale) ajuda o povo hebreu a escapar da servidão egípcia de 400 anos na adaptação de Ridley Scott do famoso relato bíblico em Êxodo: Deuses e Reis.

Nessa megaprodução da Fox, Deus é encarnado na angelical (e também severa) figura do ator britânico Isaac Andrews de 11 anos de idade. Trata-se de uma menção muito sutil e também notável feita a partir no Primeiro Livro dos Reis, capítulo 19, em que Deus fala ao profeta Elias numa voz descrita (em algumas traduções) como sendo “ainda pequena”.

Seguindo a cartilha da sabedoria do livro de Provérbios de Salomão, os estúdios Fox decidiram promover o filme não como um relato bíblico fidedigno, mas como um filme de ação adaptado das Sagradas Escrituras.

Se o filme cria ao seu bel prazer um Moisés comandante de uma milícia de israelitas terroristas (uma metáfora malsucedida entre a situação atual do Oriente Médio e a longínqua Idade do Bronze na qual se passa toda a ação na narrativa do livro de Êxodo), a produção, por outro lado, acerta em concentrar toda a tensão da narrativa entre a justiça e a misericórdia do Senhor que é um dos grandes dilemas para muitos cristãos ao redor do planeta.

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