“A Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados”

igreja

 

A Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados (2007)  é um dos mais puros diagnósticos da situação da imagem no cinema contemporâneo – mesmo tendo sido produzido há quase dez anos.

O curta metragem do mineiro de Carlosmagno Rodrigues possui ecos num certo “experimentalismo profanador” tão caro ao cinema de José Aprippino de Paula (Hitler 3º Mundo, 1968) ou do baiano “udigrúdi”, Alvaro Guimarães (Caveira my Friend, 1970), uma vez que essas obras ainda hoje possuem o doce sabor de invenção, tão vivas quanto eram há mais de 40 anos atrás e que pulverizavam o binômio pão e circo.

A Igreja… é um filme inquieto, experimental, bem à moda das obras marginais das décadas de 60 e 70, onde se inscreve um radicalismo (por vezes sórdido) da imagem fílmica onde a imprecisão estética e a subversão da imagem cinematográfica, juntamente com o desencantamento com a realidade e a noção de “autor”, se fazem presentes.

A montagem elíptica (godardiana e bárbara) desconstrói a estrutura rítmica fragmentando-a numa espécie de bricolagem grotesca, em perfeita sintonia com o que defendia com unhas e dentes o pensador russo Mikhail Bakhting (1895 ~ 1975): “a redenção do que era tido como lixo, como parte de um estratagema de subversão”.

Jump cuts, letterings de motivos soviéticos da era do Realismo Socialista, câmera em punho. Eis a prova de que o Cinema Marginal e sua “porra-louquice” dissonante não acabaram em 1971 com as interdições pela censura de Orgia, ou o Homem que deu Cria (1970) de João Silvério Trevisan ou de República da Traição (1970) de Carlos Alberto Ebert pelo governo macabro de Médici.

O filme conta as aventuras de uma igreja de dogmatismo burlesco às raias do caricatural. Nessa igreja, há a insólita imprecisão entre as díspares esferas do cristianismo (efígies de santos católicos) que não compactuam com a fé evangélica (onde bispos protestantes urram exaltações como “glória a Deus” e “aleluia, irmão”; religião essa onde não há qualquer veneração à imagens sacras). Tudo isso misturado, num “samba do crioulo doido”, com as sínteses improváveis de sacrifícios de cabras.

A verdade dessa obra, no entanto, reside debaixo do verniz duro e de certos véus densos de alguns que a acusam de meramente “despojada” e de “não discursiva”.

No cinema de Carlosmagno não existe a subserviência ao conservadorismo mercadológico, pois filmes como A Igreja…  têm por objetivo colocar em cheque questões delicadas como  a religião e seu status quo na sociedade mineira – tão tradicionalista e  barroca no que diz respeito a fé cristã. A bem da verdade, essa caricatura religiosa, esse fundamentalismo cristão tão criticado por Carlosmagno não insulta ninguém, nem fé alguma. A Igreja… traça um painel muito mais profundo da pluralidade da cultura popular brasileira: o amor pelo espetáculo folclórico de esquina, a curiosidade lúdica pelo mágico de araque da Praça Sete, e o gosto pelo “chanchadesco” urbano, circense e mambembe tão potente na imaginação da massa brasileira.

 

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