Werner Herzog e o Novo Cinema Alemão

Anões

 

Nas décadas de 1940 a 1950 houve um enorme hiato no cinema germânico.

O cinema alemão estava condenado a uma certa estagnação artística que ainda seguia o padrão moralista e conservador do estúdio UFA (Universum Film A. G.), que por sua vez, seguia à risca as diretrizes do Estado com filmes característicos da cultura germânica, além de propaganda do governo, e ainda com obras que serviam ao propósito de educação da nação.

Dessa forma, a missão oficial da UFA era fazer a divulgação das idéias do Estado, elevar o nível da produção doméstica e acima de tudo, superar a eficácia do produto estrangeiro.

Esse modelo oficial de cinema tão em voga a partir de 1917 na Alemanha, fez com que uma grande parcela do público desaparecesse das salas.

Mais tarde, no decênio de 1940, a predileção do público era para assuntos leves e descompromissados, preferindo ignorar a padronização do cinema, bem como os temas do presente e os traumas de uma guerra recentemente encerrada.

O distanciamento de uma perspectiva crítica do cinema no pós-guerra levou Werner Herzog juntamente com Rainer Werner Fassbinder e Win Wenders (o famoso triunvirato de diretores germânicos) a formar o chamado Novo Cinema Alemão.

No começo da década de 1960, alguns diretores assinam o Manifesto de Oberhausen. A declaração tinha como objetivo fundamental, recriar a cinematografia alemã a partir do zero.

Um dos mais proeminentes diretores desse movimento foi Werner Herzog.

Nascido Werner Herzog Stipetic em Munique, o diretor passou uma infância financeiramente estéril na Baviera. Estudou Literatura e posteriormente História nos Estados Unidos através de uma bolsa de estudos. Aos desessete anos fez uma tentativa frustrada de rodar um filme sobre a reforma penitenciária nacional. No ano posterior, foi ao Sudão durante a crise política do Congo. Viajou o mundo e fez filmes onde esteve. Trabalhou para a TV com documentários além de dirigir óperas. Escreveu poemas publicados na renomada revista Akzente e publicou os roteiros de todos os seus filmes.

A predominância de sua cinematografia é a estética do delírio gótico a exemplo de O Enigma de Kaspar Hauser (1974), uma obra que discute os cruéis e reacionários mecanismos de adaptação da sociedade com Bruno S. no papel central, e que na vida real foi filho não desejado de mãe prostituta e que passou a maior parte de sua vida em hospitais psiquiátricos;  A Cólera dos Deuses (1972) sobre a expedição liderada pelo espanhol Pizarro à Amazônia na busca da mítica cidade de Eldorado; um filme tão hipnótico quanto perturbador rodado do lado peruano da Amazônia com um Klaus Kinski no papel do atormentado e enlouquecido Aguirre; e finalmente, Nosferatu – O Vampiro da Noite (1979), que é a refilmagem do clássico Expressionista de 1922 dirigido pelo reputado Frederich Wilhelm Murnau. Nessa obra, Herzog elimina os contornos Expressionistas do original: a iluminação chiaroescuro, os cenários distorcidos em pé de igualdade com a exteriorização das agruras existenciais, e ainda insere uma releitura pessoal do que fora o Nosferatu silencioso dos anos 20.

Já em Os Anões Também Começaram Pequenos (1970),  o diretor alemão versa basicamente sobre a instauração de uma revolta popular de anões dentro de uma instituição comandada pela mão-de-ferro de um outro anão com pinta de déspota.

Num mundo onde todos são anões, essa obra é sobretudo um tratado metafórico de alusões arquetípicas sobre as minorias sociais, os marginalizados e os diminuídos (moralmente).

O tema da sujeição e do desprezo do homem para com o homem, é de certa forma o carro-chefe de grande parte do que circunda a obra do alemão Werner Herzog; seja no vampiro esquecido pela eternidade em Nosfertau; no homem-cobaia Kaspar Hauser, ou na insanidade solitária e primitiva do conquistador espanhol Don Lope de Aguirre em A Cólera dos Deuses.

 

 

 

 

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